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Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

Não sei se é sonho, se é realidade

Não sei se é sonho, se realidade,

Se uma mistura de sonho e vida,

Aquela terra de suavidade

Que na ilha extrema do sul se olvida.

É a que ansiamos. Ali, ali

A vida é jovem e o amor sorri

 

Talvez palmares inexistentes,

Áleas longínquas sem poder ser,

Sombra ou sossego dêem aos crentes

De que essa terra se pode ter

Felizes, nós? Ali, talvez, talvez,

Naquela terra, daquela vez,

 

Mas já sonhada se desvirtua,

Só de pensá-la cansou pensar;

Sob os palmares, à luz da lua,

Sente-se o frio de haver luar

Ah, nesta terra também, também

O mal não cessa, não dura o bem.

 

Não é com ilhas do fim do mundo,

Nem com palmares de sonho ou não,

Que cura a alma seu mal profundo,

Que o bem nos entra no coração.

É em nós que é tudo. É ali, ali,

Que a vida é jovem e o amor sorri.

Entre o luar e a folhagem

Entre o luar e a folhagem,

Entre o sossego e o arvoredo,

Entre o ser noite e haver aragem

Passa um segredo.

Segue-o minha alma na passagem

 

Ténue lembrança ou saudade,

Princípio ou fim do que não foi,

Não tem lugar, não tem verdade,

Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

 

Vazio encanto ébrio de si!

Tristeza ou alegria o traz?

O que sou dele a quem sorri?

Não é nem faz.

Só de segui-lo me perdi.

É brando o dia, brando o vento.

É brando o dia, brando o vento.

É brando o sol e brando o céu.

Assim fosse meu pensamento!

Assim fosse eu, assim fosse eu!

 

Mas entre mim e as brandas glórias

Deste céu limpo e este ar sem mim

Intervêm sonhos e memórias...

Ser eu assim, ser eu assim!

 

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.

Existe tudo quanto existo.

Há porque vemos.

E tudo é isto, tudo é isto!

Todas as coisas que há neste mundo

Todas as coisas que há neste mundo

Têm uma história,

Excepto estas rãs que coaxam no fundo

Da minha memória.

 

Qualquer lugar neste mundo tem

Um onde estar,

Salvo este charco de onde me vem

Esse coaxar.

 

Ergue-se em mim uma lua falsa

Sobre juncais,

E o charco emerge, que o luar realça

Menos e mais.

 

Onde, em que vida, de que maneira

Fui o que lembro

Por este coaxar das rãs na esteira

Do que deslembro?

 

Nada. Um silêncio entre juncos dorme.

Coaxam ao fim

De uma alma antiga que tenho enorme

As rãs sem mim.

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