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Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

O Guardador de Rebanhos - XV

As quatro canções que seguem

Separam-se de tudo o que eu penso,

Mentem a tudo o que eu sinto,

São do contrário do que eu sou...

 

Escrevi-as estando doente

E por isso elas são naturais

E concordam com aquilo que sinto,

Concordam com aquilo com que não concordam...

Estando doente devo pensar o contrário

Do que penso quando estou são.

(Senão não estaria doente),

Devo sentir o contrário do que sinto

Quando sou eu na saúde,

Devo mentir à minha natureza

De criatura que sente de certa maneira…

Devo ser todo doente — ideias e tudo.

Quando estou doente, não estou doente para outra coisa.

 

Por isso essas canções que me renegam

Não são capazes de me renegar

E são a paisagem da minha alma de noite,

A mesma ao contrário...

O Guardador de Rebanhos - XIV

Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior.

 

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...

O Guardador de Rebanhos - X

«Olá, guardador de rebanhos,

Aí à beira da estrada,

Que te diz o vento que passa?»

 

«Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,

E que passará depois.

E a ti o que te diz?»

 

«Muita coisa mais do que isso,

Fala-me de muitas outras coisas.

De memórias e de saudades

E de coisas que nunca foram.»

 

«Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.

O que lhe ouviste foi mentira,

E a mentira está em ti.»

O Guardador de Rebanhos - IX

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

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