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Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

Poemas de Fernando Pessoa

Todos os melhores poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos. Amor, amizade, paixão e vida em todos os poemas.

No Túmulo de Christian Rosencreutz

Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.

 

Fama fraternitatis roseae crucis.

 

I

 

Quando, despertos deste sono, a vida,

Soubermos o que somos, e o que foi

Essa queda até Corpo, essa descida

Até à Noite que nos a Alma obstrui,

 

 

Conheceremos pois toda a escondida

Verdade do que é tudo que há ou flui?

Não: nem na Alma livre é conhecida...

Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

 

Deus é o Homem de outro Deus maior:

Adam Supremo, também teve Queda;

Também, como foi nosso Criador;

 

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...

De além o Abismo, Espírito Seu, Lha veda;

Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

 

II

 

Mas antes era o Verbo, aqui perdido

Quando a Infinita Luz, já apagada

Do Caos, chão do Ser, foi levantada

Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

 

Mas se a Alma sente a sua forma errada,

Em si, que é Sombra, vê enfim luzido

O Verbo deste Mundo, humano e ungido.

Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

 

Então, senhores do limiar dos Céus,

Podemos ir buscar além de Deus

O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

 

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,

No sangue actual de Cristo enfim libertos

Do a Deus que morre a geração do Mundo.

 

III

 

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,

Dormimos o que somos, e a verdade,

Inda que enfim em sonhos a vejamos,

Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

 

Sombras buscando corpos, se os achamos

Como sentir a sua realidade?

Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?

Nosso toque é ausência e vacuidade.

 

Quem desta Alma fechada nos liberta?

Sem ver, ouvimos para além da sala

De ser; mas como, aqui, a porta aberta?

 

Calmo na falsa morte a nós exposto,

O Livro ocluso contra o peito posto,

Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.

 

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